Home Data de criação : 07/12/11 Última atualização : 11/10/17 11:17 / 80 Artigos publicados

A MORENINHA - Joaquim Manuel de Macedo  (Literatura Brasileira) escrito em segunda 14 janeiro 2008 23:10

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O romance A moreninha deu a Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) fama e fortuna imediatas. Publicado em 1844, foi o primeiro romance do autor que escreveu ainda 17 outras obras (embora tenha sido precedido por O Filho do Pescador, de Teixeira e Sousa).

A moreninha constituiu uma pequena revolução literária, inaugurando a voga do romance nacional. Foi o primeiro romance-romântico brasileiro com inovações na forma e na temática, trazendo à luz o primeiro mito sentimental brasileiro, o da menina morena e brincalhona. Desbancando as loiras e pálidas européias, essa menina bem brasileira criou uma forte identificação com o público e teve uma ótima recepção crítica na época de sua primeira publicação.

Foi a primeira obra da Literatura Brasileira a alcançar êxito de público, alcançando status de best-seller na corte; é um dos marcos do Romantismo no Brasil e certamente, um dos principais responsáveis pela criação do teatro no país.

Alguns estudiosos consideram que a heroína do livro é uma clara transposição da namorada do autor, e futura mulher, Maria Catarina de Abreu Sodré, prima-irmã de Álvares de Azevedo. Em sua obra, Joaquim Manuel de Macedo descreve com linguagem simples e raro senso de observação os usos e costumes da sociedade carioca de seu tempo, e a vida familiar e privada daquela época, quando o país ainda estava nas primeiras décadas de sua independência: as cenas triviais da rua, os preconceitos sociais, as festas, a economia doméstica, os saraus familiares, as conversas de comadre, as pequenas e grandes intrigas, os ciúmes mesquinhos, os namoros até certo ponto ingênuos de estudantes e donzelas, que quase sempre acabavam em casamento feliz. O livro ganhou versões para o cinema em 1915 (versão em preto-e-branco e sem som, tendo no Lydia Bottini e  Oscar Soares) e em 1970 (tendo a atriz Sônia Braga no papel principal de Carolina, a moreninha). Adaptada para novela foi exibida duas vezes pela Rede Globo, primeiramente em 1965 (autoria de Graça Mello; A moreninha contou com as primeiras cenas externas, que foram gravadas em Paquetá - local onde desenvolve-se a trama - da Globo para a produção de telenovelas) e depois em 1975, quando foi escrita por Marcos Rey e Herval Rossano, com Nívea Maria no papel de Carolina (a novela foi a primeira do horário das 18:00h a ser produzida em cores pela Rede Globo).

Leia abaixo um trecho do primeiro capítulo de A moreninha:

  

  

Cap.I - Aposta imprudente

 

”— Bravo! exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em um cabide velho. Bravo!... Interessante cena! Mas certo que desonrosa fora para casa de um estudante de medicina e já do sexto ano, a não lhe valer o adágio antigo: o hábito não faz o monge.

— Temos discurso!... Atenção!... Ordem!... gritaram a um tempo três vozes.

— Coisa célebre! acrescentou Leopoldo, Filipe sempre se torna orador depois do jantar...

— E dá-lhe para fazer epigramas, disse Fabrício.

— Naturalmente, acudiu Leopoldo, que, por dono da casa, maior quinhão houvera no cumprimento do recém-chegado; naturalmente Bocage, quando tomava carraspanas, descompunha os médicos.

— C’est trop fort! bocejou Augusto, espreguiçando-se no canapé em que se achava deitado.

— Como quiserem, continuou Filipe, pondo-se em hábitos menores; mas por minha vida que a carraspana de hoje ainda me concede apreciar devidamente aqui o meu amigo Fabrício, que talvez acaba de chegar de alguma visita diplomática, vestido com esmero e alinho, porém tendo a cabeça encapuçada com a vermelha e velha carapuça do Leopoldo; este, ali escondido dentro de seu robe de chambre cor de burro quando foge, e sentado em uma cadeira tão desconjuntada que, para não cair com ela, põe em ação todas as leis de equilíbrio, que estudou em Pouillet; acolá, enfim, o meu romântico Augusto, em ceroulas, com as fraldas à mostra, estirado em um canapé em tão bom uso, que ainda agora mesmo fez com que Leopoldo se lembrasse de Bocage. Oh! V.S.as tomam café!

Ali o senhor descansa a xícara azul em um pires de porcelana... aquele tem uma chávena com belos lavores dourados, mas o pires é cor-de-rosa... aquele outro nem porcelana, nem lavores, nem cor azul ou de rosa, nem xícara... nem pires... aquilo é uma tigela num prato...

 — Carraspana!... Carraspana!... gritaram os três.

— Ó moleque! prosseguiu Filipe, voltando-se para o corredor, traz-me café, ainda que seja no púcaro em que o coas; pois creio que, a não ser a falta de louça, já teu senhor mo teria oferecido.

— Carraspana!... Carraspana!...

— Sim, continuou ele, eu vejo que vocês...

- Carraspana! Carraspana!...

Não sei de nós quem mostra... 

- Carraspana!... Carraspana!

Seguiram-se alguns momentos de silêncio, e ficaram os quatro estudantes assim a modo de moças quando jogam o siso. Filipe não falava, por conhecer o propósito em que estavam os três de lhe não deixar concluir uma só proposição; e estes porque esperavam vê-lo abrir a boca para gritar-lhe: carraspana!

Enfim, foi ainda Flipe o primeiro que falou, exclamando de repente:

- Paz! Paz!...

- Ah! Já?... disse Leopoldo, que era o mais influído.

- Filipe é como galego, disse um outro; perderia tudo para não guardar silêncio durante uma hora.

- Está bem, o passado, passado: protesto não falar mais nunca na carapuça, nem nas cadeiras, nem na louça do Leopoldo... Estão no caso... sim...

- Hein?... olha a carraspana...

- Basta! Vamos a negócio sério. Onde vão vocês passar o dia de Sant'Ana?

- Por quê?... Temos patuscada?... acudiu Leopoldo.

- Minha avó chama-se Ana.

- Ergo!... 

Estou habilitado para convidá-los a vir passar a véspera e dia de Sant’Ana conosco, na ilha de...

— Eu vou, disse prontamente Leopoldo.

— E dois, acudiu logo Fabrício.

 Augusto só guardou silêncio.

 — E tu, Augusto?... perguntou Filipe.

— Eu?... Eu não conheço tua avó.

— Ora, sou seu criado; também eu não a conheço, disse Fabrício.

— Nem eu, acrescentou Leopoldo.

— Não conhecem a avó, mas conhecem o neto, disse Filipe.

— E ademais, tornou Fabrício, palavra de honra que nenhum de nós tomará o trabalho de lá ir por causa da velha.

— Augusto, minha avó é a velha mais patusca do Rio de Janeiro.

— Sim?... Que idade tem?

 — Sessenta anos.

 — Está fresquinha ainda... Ora.... se um de nós a enfeitiça e se faz avô de Filipe!

— E ela, que possui talvez seus 200 mil cruzados, não é assim, Filipe? Olha, se é assim, e tua avó se lembrasse de querer casar comigo, disse Fabrício, juro que mais depressa daria o meu "recebo a vós" aos cobres da velha, do que a qualquer das nossas "toma-larguras" da moda.

— Por quem são!... Deixem minha avó e tratemos da patuscada. Então tu vais, Augusto?

— Não.

— É uma bonita ilha.

— Não duvido.

— Reuniremos uma sociedade pouco numerosa, mas bem escolhida.

Melhor para vocês.

— No domingo, à noite, teremos um baile. — Estimo que se divirtam.

— Minhas primas vão. Não as conheço.

— São bonitas.

— Que me importa?... Deixem-me. Vocês sabem o meu fraco e caem-me logo com ele: moças!... moças!... Confesso que dou o cavaco por elas, mas as moças me têm posto velho.

— E porque ele não conhece tuas primas, disse Fabrício.

— Ora… o que poderão ser senão demoninhas, como são todas as outras moças bonitas?

— Então tuas primas são gentis?... perguntou Leopoldo a Filipe.

— A mais velha, respondeu este, tem dezessete anos, chama-se Joana, tem cabelos negros, belos olhos da mesma cor, e é pálida.

— Hein?... exclamou Augusto, pondo-se de um pulo duas braças longe do canapé onde estava deitado: então ela é pálida?...

— A mais moça tem um ano de menos: loira, de olhos azuis, faces cor-de-rosa... seio de alabastro... dentes...

— Como se chama?

— Joaquina.

— Ai, meus pecados! ... disse Augusto.

-Vejam como Augusto já está enternecido...

Mas, Filipe, tu já me disseste que tinhas uma irmã.

— Sim: é uma moreninha de catorze anos.

— Moreninha! Diabo!... exclamou outra vez Augusto, dando novo pulo...”

  


Preço (pesquisado em 14/01/08):


  • Para saber mais sobre Joaquim Manuel de Macedo:

http://www.mundocultural.com.br/index.asp? url=http://www.mundocultural.com.br/literatura1/romantismo/macedo.htm

http://www.biblio.com.br/conteudo/JoaquimManueldeMacedo/JoaquimManueldeMacedo.htm

 

 

 

  • Para ler mais sobre o romance A moreninha:

http://pt.wikipedia.org/wiki/A_moreninha_%28livro%29

http://www.netsaber.com.br/resumos/ver_resumo.php?c=2203

 

 

  • Nota: O vídeo contido neste artigo contém cenas da novela A moreninha com Nívea Maria e Marco Nanini, de Marcos Rey e Herval Rossano - obra baseada no livro homônimo de Joaquim Manuel de Macedo.

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1 comentário(s)

  • ianca mailto

    Qui 10 Out 2013 21:35

    Amei essa história!


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