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MINH'ALMA É TRISTE - Casimiro de Abreu  (Poesias) escrito em quinta 13 dezembro 2007 18:30

casimiro

 

 

Casimiro de Abreu foi o primeiro poeta que tive a oportunidade de ter contato, através da leitura de Primaveras (Poesias Reunidas editadas em 1859, único livro de Casimiro de Abreu publicado em vida); nesta época cursava a 7ª série do primeiro grau (atual ensino fundamental) e este era um dos livros que fazia parte do conteúdo programático, e foi então que começou minha paixão por poesias.

Casimiro de Abreu foi um dos poetas mais populares do Romantismo Brasileiro, tendo sido considerado o Poeta da saudade por tão bem cantar a sua "infância querida que os anos não trazem mais"; entre os parnasianos, Casimiro de Abreu era considerado o Poeta da morte devido seus poemas sempre claros, concisos e melancólicos. Boêmio, morreu jovem em decorrência da Tuberculose como vários escritores da época.

Entre seus poemas mais conhecidos destacam-se “Meus oito anos” , “Minha Terra” e “Canção do Exílio”.

Abaixo a poesia Minh’alma é triste, uma das que mais gosto:

 


"I

Minh'alma é triste como a rôla aflita
Que o bosque acorda desde o albor da aurora.
E em doce arrulho que o soluço imita
O morto espôso gemedora chora.

E como a rôla que perdeu o espôso
Minh'alma chora as ilusões perdidas,
E no seu livro de fanado gôzo
Relê as fôlhas que já foram lidas.

E como as notas de chorosa endeixa
Seu pobre canto com a dor desmaia,
E seus gemidos são iguais à queixa
Que a vaga solta quando beija a praia.

Como a criança que banhada em prantos
Procura o brinco que levou-lhe o rio,
Minh'alma quer ressuscitar nos cantos
Um só dos lírios que murchou o estio.

Dizem que há gozos nas mundanas galas,
Mas eu não sei em que o prazer consiste.
- Ou só no campo, ou no rumor das salas,
Não sei por que - mas a minh'alma é triste!

II

Minh'alma é triste como a voz do sino
Carpindo o morto sôbre a laje fria;
E doce e grave qual no templo um hino,
Ou como a prece ao desmaiar do dia.

Se passa um bote com as velas sôltas,
Minh'alma o segue n'amplidão dos mares;
E longas horas acompanha as voltas
Das andorinhas recortando os ares.

Às vêzes louca, num cismar perdida,
Minh'alma triste vai vagando à toa.
Bem como a fôlha que do sul batida
Bóia nas águas de gentil lagoa!

E como a rôla que em sentida queixa
O bosque acorda desde o albor da aurora,
Minh'alma em notas de chorosa endeixa
Lamenta os sonhos que já tive outrora.

Dizem que há gozos no correr dos anos!...
Só eu não sei em que o prazer consiste.
- Pobre ludíbrio de cruéis enganos,
Perdi os risos - a minh'alma é triste!

III

Minh'alma é triste como a flor que morre
Perdida à beira do riacho ingrato;
Nem beijos dá-lhe a viração que corre,
Nem doce canto o sabiá do mato!

E como a flor que solitária pende
Sem ter carícias no voar da brisa,
Minh'alma murcha, mas ninguém entende
Que a pobrezinha só de amor precisa!

Amei outrora com amor bem santo
Os negros olhos de gentil donzela,
Mas dessa fronte de sublime encanto
Outro tirou a virginal capela.

Oh! quantas vêzes a prendi nos braços!
Que o diga e fale o laranjal florido!
Se mão de ferro espedaçou dois laços,
Ambos choramos, mas num só gemido!

Dizem que há gozos no viver d'amôres,
Só eu não sei em que o prazer consiste!
- Eu vejo o mundo na estação das flôres...
Tudo sorri - mas a minh'alma é triste!

IV

Minh'alma é triste como o grito agudo
Das arapongas no sertão deserto;
E como o nauta sôbre o mar sanhudo,
Longe da praia que julgou tão perto!

A mocidade no sonhar florida
Em mim foi beijo de lasciva virgem:
- Pulava o sangue e me fervia a vida,
Ardendo a fronte em bacanal vertigem.

De tanto fogo tinha a mente cheia!...
No afã da glória me atirei com ânsia...
E, perto ou longe, quis beijar a s'reia
Que em doce canto me atraiu na infância.

Ai! loucos sonhos de mancebo ardente!
Esp'ranças altas... Ei-las já tão rasas!...
- Pombo selvagem, quis voar contente...
Feriu-me a bala no bater das asas!

Dizem que há gozos no correr da vida...
Só eu não sei que o prazer consiste!
- No amor, nas glórias, na mundana lida,
Foram-se as flôres - a minh'alma é triste!"
 

 

 


Preço de Primaveras (pesquisado em 13/12/07):

 

 


  • Para saber mais sobre Casimiro de Abreu e conhecer outras de suas poesias clique em:  

http://pt.wikipedia.org/wiki/Casimiro_de_Abreu

http://br.geocities.com/edterranova/casimiro.htm

http://www.casimirodeabreu.com/nossopoeta.htm


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1 comentário(s)

  • adry mailto

    Sáb 04 Fev 2012 16:26

    poesia maravilhosa, autor extraordinario.


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